‘Ainda há argentinos que acham que são europeus’, diz sociólogo

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  • Marcia Carmo
  • De Buenos Aires para a BBC News Brasil

Bandeira argentina na contraluz, segurada por estátua

Crédito, AFP

Legenda da foto,

História argentina é marcada por culturas além da europeia — predominantemente destacada —, o que passou a ser mais ressaltado nos últimos anos, como a busca da identidade dos negros nascidos no país

Nesta semana, o presidente argentino, Alberto Fernández, gerou forte polêmica na Argentina, no Brasil e no México ao fazer uma declaração considerada preconceituosa.

Em um encontro com o premiê da Espanha Pedro Sánchez, Fernández disse que “os mexicanos saíram dos índios, os brasileiros saíram da selva, mas nós argentinos chegamos dos barcos, barcos que vinham da Europa”.

Logo depois, ele se desculpou, em suas redes sociais, dizendo que não queria ofender ninguém e enviou uma carta de esclarecimentos à diretora do Instituto Nacional contra a Discriminação, a Xenofobia e o Racismo (INADI).

“A Argentina foi um dos países do mundo que mais imigração europeia recebeu entre o fim do século dezenove e o início do século vinte. Isso gera um laço cultural impossível de deixar de lado”, escreveu.

E acrescentou que isso não o faz ignorar que antes da colonização (espanhola) existiam diferentes povos originários e que hoje a Argentina é resultado desta história e de “muitos outros povos”, incluindo as imigrações dos países da América Latina.

Mas com a frase sobre os “barcos”, Fernández acabou sendo fortemente criticado também por seus opositores, que viram nele um “ato racista” e um “desconhecimento” sobre a história.

O fato é que sua fala sobre a ascendência europeia, e que costuma ser repetida por setores da sociedade argentina e está registrada até em canções populares, colocou o foco em um capítulo importante da história do país, mas deixando de lado outros cruciais como os povos originários, os negros e outros imigrantes, além dos europeus.

Nos últimos anos, a população afrodescendente, assim como os povos originários, têm buscado reafirmar de forma ativa sua identidade no país. Entre eles, a carta de Fernández ao INADI foi vista como “limitada”, “sem reconhecer as demandas de reconhecimento de genocídio dos povos indígenas” e “não esclareceu e redimiu o racismo embutido na sociedade argentina”, como disse um de seus integrantes à BBC News Brasil. A problemática levou aliados de Fernández a disserem que não participariam da “discussão alimentada pela direita”.

Crédito, EPA/Juan Ignacio Roncoroni

Legenda da foto,

‘Eu não quis ofender a ninguém. Peço desculpas’, afirmou presidente argentino sobre declaração acerca dos brasileiros

Estudioso das questões migratórias e raciais da Argentina, o sociólogo e professor emérito da Universidade de Buenos Aires (UBA) Mario Margulis disse que ainda há argentinos que entendem que estão muito mais próximos da Europa do que da identidade latino-americana — e que a história e até a atual geografia da cidade de Buenos Aires explicam esse quadro.

Margulis lembrou que, na presidência de Domingo Faustino Sarmiento, de 1868 a 1874, a Argentina era um país praticamente despovoado com cerca de um milhão e meio de habitantes quando começaram a chegar, até 1930, aproximadamente seis milhões de imigrantes ao país, principalmente italianos e espanhóis. Mas também, apesar de em muito menor quantidade, árabes e judeus.

Foi aquela forte imigração, disse, especialmente no século 19, marcado por discursos “racistas” em várias partes do mundo, onde a pele branca e europeia era valorizada e prestigiada, que acabou povoando as mentes de setores da sociedade argentina. Os imigrantes, fugindo de guerras e perseguições em suas terras de origens, desembarcaram na região central da Argentina — Buenos Aires, Córdoba, Santa Fe, Mendoza e Entre Ríos.

Os europeus, disse o estudioso, eram vistos como “uma classe superior” e “as outras cores de pele, que não eram brancas, e até a forma dos corpos eram vistas como inferiores”. Para ele, “os preconceitos” continuam existindo de várias formas, mantendo os vestígios do século dezenove, o século do colonialismo e do pensamento racista.

“Em toda a América Latina houve, e ainda há, uma forma de racismo, que vem desde o chamado descobrimento da América. O preconceito vem das entranhas da América Latina desde a chegada de Colombo”, disse Margulis.

Recordando passagens de um de seus livros, Margulis lembrou na entrevista à BBC News Brasil que “indígenas e mestiços, assim como os escravizados negros, foram a mão de obra barata ou forçada no período colonial”.

“Desde a chegada dos espanhóis e durante toda a época colonial, o racismo foi a base social. As estruturas forjadas nessa época continuam presentes, estimuladas pelo racismo explícito dos pensadores do século dezenove.”

Ele ratificou o que disse em uma das suas obras, dizendo que o assunto continua “invisível”, inclusive entre pensadores de esquerda.

“Em linhas gerais, a cor da pele coincide com a pobreza”, disse.

Ele ilustrou suas observações sobre as “várias manifestações de preconceitos” com o que ocorre hoje na capital argentina.

“Há uma população nas estações de trem Constitución e Once, que leva aos subúrbios, que não é a mesma que mora no bairro (rico) da Recoleta”, disse Margulis. Para ele, este retrato ainda é resultado da construção do país. Quando perguntado se não há integração após tantos anos após a chegada dos imigrantes europeus, ele respondeu: “integração desigual”.

Legenda da foto,

Favela Villa 31 fica entre a Recoleta e Puerto Madero, em Buenos Aires; capital argentina reflete divisões culturais e sociais, diz Margulis

Para ele, os corpos descendentes da mestiçagem e da pobreza também são diferentes do corpo propagado da beleza ideal, o que também contribui para o preconceito.

“A mulher gorda que teve oito filhos e tem o estereótipo da mestiçagem não tem a mesma atenção que aquela que responde aos estereótipos da beleza (a imaginária beleza europeia) propagada pelos meios de comunicação”, disse.

“A segregação existe e ela é visível. E apesar da integração, que é desigual, o preconceito e a discriminação continuam existindo”, disse. Margulis citou frases dos líderes da época, incluindo Sarmiento, e escritores como Jorge Luis Borges, além de britânicos, para recordar as formas de racismo e valorização da pele branca.

Margulis entende que foi na década de 1940, com a chegada do ex-presidente Juan Domingo Perón (1895-1974) ao poder, que os argentinos “euronativos” explicitaram sua maior rejeição aos mestiços, que chegaram do interior do país em Buenos Aires. Ali nasceu, então, recordou, a expressão “cabecitas negras” (pele morena e cabelo escuro) por parte dos que rejeitaram as outras culturas da identidade nacional.

Para ele, o racismo está explícito também no vocabulário argentino, como “villeros” (em referência aos que moram nas favelas) e nas alusões a imigrantes como os paraguaios e bolivianos, por exemplo. No entanto, na sua visão, no caso de Fernández, ele não cometeu um ato racista, mas “um lamentável descuido”.

Na entrevista, Margulis, de 88 anos, disse que há muito tempo não viaja ao Brasil, mas que pelo que acompanha das notícias do país o racismo ali também continua em vigor. E a situação não seria muito diferente, disse, nos Estados Unidos, onde negros foram alvos recentemente de “linchamentos”.

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