Copa América: Como torneio perdeu relevância e prejudica clubes brasileiros

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  • Leandro Machado
  • Da BBC News Brasil em São Paulo

Jair Bolsonaro e jogadores da seleção brasileira

Crédito, Getty Images

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O presidente Jair Bolsonaro comemorou o título da última Copa América com os jogadores da seleção, em 2019

A Copa América, torneio que será realizado no Brasil entre os dias 13 de junho e 10 de julho, vem perdendo a importância nas últimas décadas a ponto de hoje ser considerado “irrelevante” por comentaristas esportivos e torcedores de futebol.

Por outro lado, a competição ainda movimenta muito dinheiro em patrocínios e venda de direitos de transmissão.

Nesta semana, a Conmebol (Confederação Sul-Americana de Futebol) anunciou que a edição deste ano, com dez seleções da região, será realizada no Brasil — os jogos vão ocorrer nas cidades de Brasília, Cuiabá, Goiânia e Rio de Janeiro.

O anúncio ocorreu depois que Colômbia e Argentina desistiram de sediar o torneio. A Colômbia vive um momento de instabilidade política e a Argentina sofre um agravamento no quadro da pandemia de covid-19 — atualmente, a média móvel de mortes em 7 dias é de 485 óbitos no país, que atingiu total de 77 mil mortes por covid.

A mudança para o Brasil, onde mais de 469 mil pessoas já morreram de covid, foi duramente criticada por grande parte da imprensa esportiva, pela oposição ao governo Bolsonaro e por infectologistas.

Quem é contra afirma que mobilizar centenas de profissionais, entre jogadores e comissões técnicas, pode aumentar o risco de transmissão do coronavírus em locais onde a pandemia já está descontrolada. Todos os três Estados escolhidos como sede bem como o Distrito Federal sofrem com mais de 85% dos leitos de Unidades de Terapia Intensiva ocupados, e altos índices de óbitos pela doença.

Além disso, críticos afirmam que o poder público deveria concentrar esforços e recursos para controlar a pandemia, e não para organizar uma competição de futebol cujos benefícios para o Brasil são difíceis de definir — ainda não está claro se haverá investimento público no evento.

Já a Conmebol prometeu manter os estádios fechados para o público e seguir “protocolos de saúde rígidos, alinhados com as autoridades de saúde”.

Crédito, Reuters

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Estádio de Brasília viveu auge na Copa do Mundo, com grandes públicos, mas não consegue pagar o investimento e acumula prejuízos depois do Mundial

A entidade também agradeceu o presidente Bolsonaro por viabilizar o campeonato no país.

“Em nome do futebol sul-americano, quero agradecer ao presidente Jair Bolsonaro pela eficiência na tomada de decisões, e ao ministro da Casa Civil, Luiz Eduardo Ramos, pela parte operacional em relação à competição”, disse Alejandro Dominguez, presidente da Conmebol, em pronunciamento nas redes sociais.

Qual é a importância da Copa América?

A Copa América, até 1975 conhecida como Campeonato Sul-Americano de Futebol, existe oficialmente desde 1916 — é o torneio de seleções em vigor mais antigo do mundo. Com 15 títulos, o Uruguai é o maior vencedor, seguido por Argentina (14), Brasil (9) e Paraguai (2). O Brasil é o atual campeão.

“Até o surgimento da Copa do Mundo em 1930, o campeonato sul-americano era o mais importante para todos os países sul-americanos”, explica o historiador Flavio de Campos, professor do curso de pós-graduação em História Sociocultural do Futebol na Universidade de São Paulo (USP).

“À medida que a Copa do Mundo se consolidou, a Copa América foi perdendo importância gradualmente. Já nos anos 1990, existiu uma grande sobreposição de campeonatos e os clubes passaram a reclamar quando precisam ceder seus jogadores para as seleções de seus países”, diz Campos, que também é contra a realização do evento em meio ao agravamento da pandemia.

Dessa vez, a grande expectativa gerada pela disputa era a possibilidade de Lionel Messi finalmente vencer um título por sua seleção em solo argentino, chance encerrada com a desistência do país de receber o evento.

Crédito, Getty Images

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Tite será o técnico da Seleção Brasileira durante a Copa América

Já Arnaldo Ribeiro, comentarista esportivo do canal SporTV e do portal UOL, acredita que a competição se enfraqueceu, também, quando passou a ser disputada a cada dois anos, a partir de 1989. “Houve uma banalização com muitas edições entre as Copas do Mundo e Olimpíada. Hoje, a Copa América é excessiva, desproporcional e irrelevante. Ela é odiada pelos torcedores dos clubes”, explica.

Nesta edição, clubes grandes do futebol brasileiro, como São Paulo, Flamengo, Palmeiras e Atlético Mineiro, vão perder jogadores que foram convocados pelas seleções para disputar a Copa América — em muitos casos, os atletas custam milhões em salários e direitos esportivos para as agremiações.

No caso do rubro-negro carioca, que tem o elenco mais caro do país, serão oito desfalques, contando atletas que vão jogar a Copa América, as Olimpíadas e Eliminatórias para a Copa do Mundo.

Mesmo com tantos desfalques, o calendário do Campeonato Brasileiro e da Copa do Brasil, as duas competições mais importantes do país, não serão paralisados por causa dos jogos da seleção. Ou seja, os principais times do país ficarão meses sem alguns de seus jogadores, gerando um desequilíbrio nas competições mais importantes do país.

“O excesso de jogos de seleções não é só um problema da América do Sul. Hoje se joga muitos campeonatos de seleção no mundo todo, e há um componente financeiro muito grande nesse movimento. Essa é uma reclamação dos clubes também na Europa: a própria Copa do Mundo tem perdido aderência em relação à Liga dos Campeões da Europa”, diz Ribeiro.

No Brasil, o problema se agrava. Por causa da paralisação das atividades no início da pandemia, o calendário, que já sofria com excesso de jogos, piorou a ponto de diversos times disputarem partidas com um intervalo de apenas 48 horas nesta temporada.

Crédito, AFP

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Neymar é um dos astros que vão jogar a Copa América neste ano

“Esse calendário desumano aumenta muito as chances de lesão dos jogadores, além de cercear as férias dos atletas e comprometer o desempenho deles. Os clubes perdem os atletas para a seleção, e também ocorre de alguns voltarem lesionados”, diz Flavio de Campos, da USP.

No ano passado, o atacante Pedro, do Flamengo, sofreu uma lesão durante um treino da Seleção Brasileira. Ele foi cortado do time comandado por Tite e desfalcou o rubro-negro por algumas partidas.

O mesmo ocorreu neste ano com o polonês Robert Lewandowki, atacante do Bayern de Munique e eleito melhor jogador do mundo em 2020, que perdeu jogos decisivos da equipe alemã na Liga dos Campeões depois de se lesionar em uma partida da seleção de seu país.

Mas os atletas não poderiam se revoltar contra esses problemas e decidir por não entrar em campo?

“É uma loucura, uma aberração fazer uma Copa América neste momento. E pior ainda no Brasil, o país que todos sabemos como está na pandemia. O país com a pior situação sanitária, com mais casos (de coronavírus) na região”, disse Chilavert.

Porém, além de boicotes como esse não serem comuns no futebol mundial, há uma cultura no esporte que prejudica atletas que se recusem a jogar com a camisa de seu país, diz Arnaldo Ribeiro.

“No futebol, quando um jogador decide não jogar, ele é taxado como ‘traidor da pátria’, alguém que não valoriza a camisa da seleção. Alguns jogadores já sofreram consequências por fazer isso, como não ser mais convocado”, afirma o jornalista.

Direitos de transmissão

Na média, o torcedor brasileiro não tem se importado muito com a Copa América nos últimos anos, embora, na última edição, a Seleção Brasileira tenha ganhado a taça em um jogo com um Maracanã lotado (3 a 0 sobre o Peru).

Nessa última disputa, em 2019, as arquibancadas vazias em muitos dos jogos, principalmente na primeira fase, chamaram a atenção da imprensa esportiva. Na média, o público ficou em 34,6 mil pessoas por partida, 37% maior que a edição anterior, no Chile, mas bastante aquém da capacidade dos estádios brasileiros.

Um levantamento divulgado em abril deste ano pela Sport Track, empresa especializada em pesquisas na área de esportes, apontou que a Copa América é a 5ª colocada no rol de competições favoritas do torcedor brasileiro — apenas 29% dos entrevistados tinham interesse na disputa.

Em primeiro lugar, aparece a Libertadores (57%), seguida por Copa do Mundo (54%), Liga dos Campeões da Europa (37%) e Mundial de Clubes (30%).

“No Brasil, as pessoas gostam mais dos clubes de futebol, o mercado é todo focado nos clubes. Seleção importa para o torcedor apenas na Copa do Mundo”, diz Rodrigo Capelo, repórter especializado em negócios do esporte do site Globo Esporte.

“Cancelar o Campeonato Brasileiro, por exemplo, seria catastrófico para os clubes. Ele movimenta o mercado, com patrocínios, premiações, geração de empregos para milhares de profissionais. Estima-se que a Copa América arrecade US$ 120 milhões, mas o dinheiro vai principalmente para a Conmebol e confederações nacionais. A entidade já tem cerca de US$ 170 milhões em caixa. Na minha opinião, um ano sem Copa América não teria consequências tão grandes para a Conmebol como um possível cancelamento do Campeonato Brasileiros teria para o mercado”, diz.

Ao contrário das últimas edições, exibidas pela TV Globo, neste ano a Copa América será transmitida pelo SBT — a emissora de Silvio Santos teria pago US$ 6 milhões pelos direitos à Conmebol, segundo o portal UOL.

Na terça-feira, ao ser questionado sobre a competição, o presidente Jair Bolsonaro citou a TV Globo, grupo considerado por ele como adversário. “TV Globo, [vocês] perderam. E abram o olho para 2022”, completou, em alusão à renovação de parte das concessões públicas da emissora, que vence no ano que vem.

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