CPI da Covid: quase 1 mês após ser criada, secretaria da qual Luana Araújo foi removida ainda está sem comando

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  • Rafael Barifouse
  • Da BBC News Brasil em São Paulo

Jair Bolsonaro e Marcello Queiroga lado a lado com a mão no peito

Crédito, Getty Images

Legenda da foto,

Queiroga negou ter havido pressão do Planalto para não nomear infectologista

Quase um mês após ser criada, a Secretaria Extraordinária de Enfrentamento à Covid-19 está sem um titular.

A última ocupante da função foi a infectologista Luana Araújo, que depôs na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid na quarta-feira (2/6). Ela ficou só dez dias no posto.

Araújo foi anunciada pelo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, no dia 12 de maio, e dispensada no dia 22, antes mesmo de ser formalmente nomeada.

O Ministério da Saúde afirmou à BBC News Brasil que ainda avalia nomes para substituir Araújo e que não há uma previsão para essa decisão ser tomada.

Ao ser questionada pelos senadores sobre o motivo de sua saída, Araújo explicou que sua nomeação não teria sido aceita internamente no governo federal.

“O ministro disse que lamentava, mas que meu nome não ia passar pela Casa Civil”, disse ela, acrescentando depois que não sabia se a indicação teria sido vetada especificamente por essa pasta, mas que fazia essa referência porque imaginava ser assim que as indicações são avaliadas.

Em seu depoimento, Araújo contou que tentou formar uma equipe própria na secretaria, mas seus convidados resistiram a assumir cargos no governo federal.

“Infelizmente, por tudo o que vem acontecendo, por essa polarização esdrúxula, os maiores talentos dessas áreas não estavam exatamente à disposição para trabalhar nessa secretaria. Não queriam trabalhar (nela).”

Primeira indicada a não chegou a assumir

Marcelo Queiroga anunciou a criação de uma secretaria para lidar especialmente com o combate à pandemia em 24 de março, no dia seguinte à sua posse.

Mas o decreto que de fato a instaurou foi publicado pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) mais de um mês depois, em 10 de maio.

O governo federal foi bastante criticado por só ter criado essa secretaria mais de um ano depois do início do surto global de covid-19. A subpasta da Saúde ficaria encarregada de centralizar os esforços no combate à pandemia.

Queiroga chegou a anunciar que a enfermeira Francieli Fantinato, funcionária de carreira do Ministério da Saúde e atual coordenadora do Programa Nacional de Imunizações, assumiria o cargo.

“Com essa indicação, sinalizamos que o nosso objetivo principal é fortalecer nossa campanha de vacinação”, disse Queiroga em 14 de abril. Mas Francinato não chegaria a assumir de fato.

Crédito, Agência Senado

Legenda da foto,

Luana Araújo é contra o suposto tratamento precoce defendido por Bolsonaro

Queiroga nega pressão do Planalto

Luana Araújo foi indicada em seu lugar por Queiroga. A infectologista é formada em Medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e pós-graduada pela Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos.

Mas ela deixou ministério depois de não ter seu nome aprovado pelo governo Bolsonaro.

O motivo da saída de Araújo não foi detalhado por Queiroga, nem pelo ministério, que informou apenas que buscaria “outro nome com perfil profissional semelhante: técnico e baseado em evidências científicas”.

Na ocasião, Queiroga negou que tivesse havido pressão, por parte do Palácio do Planalto, contra a nomeação da médica.

Em audiência no Congresso, o ministro afirmou que Araújo não chegou a ser nomeada e agregou que em cargos do tipo “é necessário que exista validação técnica e também validação política, para todos os cargos”.

A médica já havia se manifestado contra o uso de um suposto tratamento precoce contra a covid-19, posição oposta à do presidente, que incentivou o uso de medicamentos sem comprovação científica de sua eficácia contra essa doença.

Questionada diversas vezes pelos senadores sobre o motivo de seu desligamento, a médica disse não ter sido informada por Queiroga e que, portanto, a pergunta deveria ser feita ao ministro.

Queiroga já depôs na CPI, mas foi reconvocado, porque seu testemunho foi considerado insatisfatório. Ele será ouvido novamente no próximo dia 8.

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