Por que assédio de médico brasileiro preso no Egito revoltou árabes

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  • Daniel Gallas
  • Da BBC News Brasil em Londres

Victor Sorrentino

Crédito, Reprodução/ Mídias sociais

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Médico Victor Sorrentino filmou e publicou um vídeo em que pergunta para uma vendedora em Luxor: “Vocês gostam mesmo é do bem duro né?”

A detenção de um médico brasileiro no Cairo, investigado por assediar uma vendedora em loja de papiros, ganhou manchetes não só no Egito como em diversos outros lugares no mundo árabe — inclusive em nações onde há relatos de graves abusos aos direitos das mulheres.

O médico gaúcho e influencer digital Victor Sorrentino postou na semana passada em seu Instagram — com quase um milhão de seguidores — um vídeo em que aparece na cidade turística de Luxor fazendo comentários obscenos de conotação sexual e duplo sentido a uma vendedora em uma loja de papiros.

“Vocês gostam mesmo é do bem duro, né? E comprido também fica legal, né?”, diz Sorrentino, em meio a risos, à vendedora, enquanto ela lhe mostrava papiros.

Após a repercussão negativa do vídeo nas redes sociais brasileiras — e antes de o caso ganhar notoriedade no Egito e nos países árabes — o médico voltou no dia seguinte à loja e gravou um novo vídeo, em que aparece pedindo desculpas à vendedora.

Na segunda-feira (31/05), Sorrentino foi detido por autoridades egípcias e segue impedido de deixar o país, enquanto investigadores decidem qual desfecho dar ao caso. Até agora ele não foi acusado formalmente.

Depois que o vídeo foi traduzido para o árabe com ajuda de ativistas e blogueiros brasileiros, o caso teve enorme repercussão no Egito e no país árabe — sendo principal tópico de discussão na segunda-feira no Twitter e ganhou reportagens de capa em jornais do Egito, Arábia Saudita, Emirados Árabe e outros países.

O caso também foi amplamente noticiado nas televisões em árabe da BBC, Al-Jazeera, Al-Arabiya e Sky.

Mas por que o episódio envolvendo o médico brasileiro recebeu tanta atenção no Egito — um dos países com um dos piores históricos de assédio sexual contra mulheres no mundo?

Ativistas no Egito dizem que o problema do assédio sexual é quase uma “epidemia” no país. Um relatório da ONU de 2013 cita uma pesquisa em que 83% das mulheres egípcias relataram ter sofrido algum tipo de assédio sexual — entre mulheres estrangeiras, o percentual era de 98%.

A BBC News Brasil ouviu mulheres egípcias, brasileiras no Cairo, jornalistas e ativistas para entender porque o caso do médico brasileiro repercutiu tão fortemente no Egito e outros países do mundo árabe.

A BBC News Brasil também buscou contato com pessoas próximas ao médico, mas não obteve retorno (confira no fim da reportagem).

Primeiro vídeo: obscenidade em público, flagrante e religião

O comportamento do médico foi muito criticado por brasileiros que assistiram aos dois vídeos postados por ele nas redes.

No entanto, no mundo árabe o vídeo teve repercussão ainda maior — em parte por causa de algumas diferenças culturais entre Brasil e Egito que nem sempre são percebidas pelos brasileiros.

“A gente nota que ele provavelmente não estudou sobre o país antes de visitar, não sabe nada sobre os costumes daqui”, diz Patrícia Oliveira, brasileira que mora e trabalha no Cairo há três anos.

Ela dirige, junto com outras duas brasileiras, a página Vida no Egito, que traz dicas e relatos em português do cotidiano no país. Foi ela quem traduziu o vídeo para o árabe, em parceria com outros ativistas e blogueiros baseados em Nova York, Londres e Cairo.

Essa tradução foi importante para que os egípcios ficassem sabendo do caso, já que até então o vídeo circulava apenas nas mídias sociais brasileiras.

Acredita-se que as autoridades egípcias resolveram deter o médico brasileiro depois de verem o vídeo ter grande repercussão nas redes egípcias — com a hashtag “Responsabilize o assediador brasileiro” entre as mais tuitadas no fim de semana.

Crédito, Cortesia

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Patrícia Oliveira vive e trabalha no Egito há três anos e fez a tradução para o árabe do vídeo publicado por Sorrentino

Pessoas com familiaridade com costumes no Egito em outros países árabes que assistiram ao vídeo falaram à BBC News Brasil sobre alguns desses aspectos culturais que fizeram com que alguns egípcios se sentissem ainda mais ofendidos:

Obscenidade em público. O fato de Victor Sorrentino falar sobre sexo em público, mesmo indiretamente através de palavras de duplo sentido, é algo pouco aceito em sociedades árabes, disse uma jornalista síria do serviço árabe da BBC.

Esse tipo de conversa, com referências a órgãos sexuais, não costuma ser feito em ambientes abertos. Em alguns lugares onde há apenas a presença de homens, ela até poderia ocorrer. Mas usar esse tipo de linguagem e abordar esses temas na presença de uma mulher — seja ela parente ou não —, como fez Sorrentino, é uma ofensa grave para a maioria dos árabes.

Perigo para a vítima. A brasileira que vive no Egito também ressalta outro aspecto: “Ficamos sabendo que a família da vítima está apoiando ela, o que é ótimo. Mas qual vai ser a consequência disso tudo para ela? Poderia acontecer de, se fosse com outra pessoa, que a vítima não tivesse esse suporte da família, ou que de alguma forma eles vissem ela como culpada de sofrer o assédio. Quem poderia afirmar antes do caso acontecer que esse seria o desfecho, de ela ter o apoio da família?”

Gehad Hamdy,, ativista fundadora do Speak Up, o site de ativistas antiassédio que publicou primeiro a versão traduzida do vídeo — dando ampla repercussão ao caso no Egito — concorda: “Por isso foi tão importante nós borrarmos o rosto dela e protegermos a identidade dela no vídeo que publicamos denunciando o caso”. Nos dois vídeos postados no Instagram por Victor — o que contém o assédio e o de desculpas — o rosto da ativista aparece.

– Autoflagrante. Assédio sexual de mulheres é hoje um tema muito debatido na sociedade egípcia, com diversas mudanças em curso (leia abaixo). Pesquisas indicam que a maioria das mulheres já sofreu algum tipo de assédio, mas a grande dificuldade sempre foi a de comprovar os casos.

O que chamou a atenção para muitos ativistas é que o próprio médico produziu e publicou um vídeo. Sem esse material, teria sido difícil detê-lo para investigações.

“Fiquei surpresa que ele tenha sido preso em menos de 24 horas. A unidade de monitoramento e análise de dados do Ministério Público acompanha as redes sociais e monitora esses casos”, disse Gehad Hamdy à BBC News Brasil.

Crédito, Reprodução/ Mídias sociais

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Twitter do Speak Up, uma iniciativa de apoio a vítimas de violência, espalhou a hashtag em árabe “Responsabilize o assediador brasileiro”

Uso do hijab. O uso obrigatório de véu para cobrir os cabelos das mulheres muçulmanas é controverso em algumas partes do Ocidente e do Oriente. Mas em muitas sociedades, as mulheres usam véus como um símbolo de respeito e honra.

A vítima que aparece no vídeo cobre seu cabelo com um hijab. Um jornalista do serviço árabe da BBC disse que um estrangeiro filmar uma mulher com hijab e fazer brincadeiras com ela diante de milhares de pessoas na internet já seria considerado um ato desrespeitoso — até mesmo sem o teor sexual das palavras.

Exposição da vendedora. Muitos que viram o vídeo se sentiram mal pela exposição da vendedora, que parece uma pessoa jovem e inocente. Eles apontaram que ela parece não entender o que está sendo dito pelo médico, e a conotação obscena das suas palavras. “Muitos viram no vídeo um estrangeiro se aproveitando que a menina não entende nada do que ele está falando”, disse um jornalista da BBC Arabic.

Religião. Patrícia Oliveira aponta uma outra questão que pode ser problemática para os egípcios que assistem ao vídeo quando o médico diz: “Vocês gostam mesmo é do bem duro, né? E comprido também fica legal, né?”.

Oliveira diz: “Quando ele fala isso, quem é o sujeito da frase? ‘Vocês, as mulheres’, ou ‘vocês, as muçulmanas’? Não fica claro se ele está se referindo também à religião, e muitas pessoas poderiam entender isso como uma ofensa ao Islã.”

Segundo vídeo: nova exposição e toque

Para as pessoas ouvidas pela BBC News Brasil, o segundo vídeo, em que Victor Sorrentino volta ao local de trabalho da vítima também é problemático.

Sorrentino volta à loja no dia seguinte e liga a câmera imediatamente, novamente expondo a vendedora na internet.

“Eu acabei de chegar aqui e falei com ela que não quero nem conversar antes contigo (diz ele à vendedora) para a gente ser espontâneo, que eu quero te ouvir mesmo. Ontem deu uma confusão aquele negócio”, diz o médico no novo vídeo, que foi postado na sua conta de Instagram. Posteriormente a conta dele foi fechada apenas para seus seguidores.

“E dentro das brincadeiras… eu posso te encostar (diz ele, tocando no braço dela, após o consentimento da vendedora)? Eu fiz uma brincadeira que é uma brincadeira de mau gosto com mulheres e que eu faço com minhas amigas e meus familiares no Brasil.”

Victor diz que não tinha o direito de brincar com a vendedora, mas logo em seguida ele repete o teor do que havia sido dito no primeiro vídeo.

“Apesar de que eu acho que tu não entendeu (sic) o que se passou lá. Eu vou te explicar o que que é. Quando você falou do papiro … não precisa ficar vermelha, tá … você falou ‘ah, tem que ser duro’, aí eu brinquei ‘ah, então é duro’. ‘E tem que ser grande’. Grande e duro. Grande e duro é uma analogia… uma brincadeira… tu sabes, né?”, diz ele, em meio a risos de ambos.

A vendedora responde: “Tá, entendi.”

“Tá, ficou vermelha. Mas isso é uma brincadeira brasileira que pode ser vista como uma brincadeira de mau gosto, e eu acho que é. Uma brincadeira assim ‘bah, não precisava fazer isso’. Mas sabe, eu sou assim. Você viu ontem, eu sou um cara muito brincalhão que sai brincando né? E filmei isso. E as pessoas ficaram ofendidas por você. Por que ‘poxa, como o Victor fala isso para uma mulher?’ Ela é muçulmana, ela não pode falar esse tipo de coisa, não pode ouvir isso e tal e ficou chateada.”

“Então eu primeiro de tudo, eu vim aqui porque quero saber como é que tu estás e pra te pedir desculpas. Se eu te chateei de qualquer forma. Mas eu quero saber de ti, se tu te sentiu (sic) atingida por isso, ou acuada com isso e eu quero que tu sejas muito verdadeira. Eu acabei de chegar aqui, eu estou na entrada do negócio.”

A vendedora responde então em meio a risos: “Mas nada, nada, não se passa nada. Tudo bem. Eu ouço como uma piada. Não passa nada. Eu entendi isso.”

No vídeo, Sorrentino toca duas vezes na vendedora. Na primeira ocasião, ele pede a permissão dela e ela consente. Na segunda, os dois seguram suas mãos juntos por cerca de 10 segundos, enquanto o médico pede desculpas. O médico parece ser alertado por um interprete de algo, e imediatamente solta as mãos da vendedora após isso.

As pessoas que assistiram ao vídeo disseram à BBC News Brasil que o ato de tocar em uma mulher com quem ele não é casado, mesmo tendo pedido o consentimento dela, pode ser considerado ofensivo por vários egípcios. Em algumas sociedades e contextos árabes, um gesto semelhante poderia até ser interpretado como crime.

“Os árabes são pessoas muito calorosas, como as pessoas de cultura latina”, disse uma jornalista da BBC no Cairo. “Mas a questão do toque e do contato físico entre duas pessoas de sexo oposto não-casadas é bem diferente, e não é bem vista aqui.”

Gehad Hamdy, do Speak Up, questiona ainda se o pedido de desculpas é realmente genuíno. “Eu não acho que isso possa ser chamado de desculpas. Ele estava tentando se encobrir depois que seus seguidores o atacaram. Ele não disse a verdade à garota”, opina ela.

A imprensa egípcia noticiou que a vítima teria mantido uma queixa formal contra o médico — mesmo após o vídeo de desculpas.

Mudanças na sociedade

O caso de Victor Sorrentino aconteceu em um momento em que o Egito vive uma espécie de “primavera” em relação aos direitos das mulheres e a luta contra assédios sexuais, com alguns avanços importantes — mas também com retrocessos e decepções.

A lei que tipifica o crime de assédio sexual é recente, tendo entrado em vigor apenas em 2014.

Dois episódios recentes provocaram intensos debates na sociedade egípcia, e muitos dos entrevistados disseram à BBC News Brasil que a atitude de leniência das autoridades em casos assim está mudando.

Em uma rara vitória dos direitos das mulheres no Egito, um estudante de 22 anos foi condenado em dezembro do ano passado a três anos de prisão por assediar sexualmente duas mulheres usando as redes sociais.

Ahmed Bassem Zaki foi preso em julho no Cairo, onde estudou na faculdade de elite American University.

As acusações contra ele desencadearam uma campanha no estilo do MeToo, com mulheres relatando suas experiências de assédio sexual.

O tribunal considerou Zaki culpado de enviar fotos e textos pornográficos para telefones de mulheres.

O caso começou em julho de 2020, quando diversas mulheres postaram denúncias anônimas contra Zaki em uma conta do Instagram chamada Assault Police (“Polícia do Assédio”).

Outro caso de enorme repercussão no Egito foi o suposto estupro coletivo de uma mulher no hotel de luxo Fairmont Nile City Hotel em 2014 por um grupo de homens de famílias poderosas que, teriam filmado e divulgado o vídeo online.

Crédito, AFP

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Caso de suposto estupro no hotel de luxo Fairmont, no Cairo, provocou revolta entre ativistas que lutam pelos direitos das mulheres

Os promotores ordenaram a prisão de vários suspeitos em agosto de 2020 — mas testemunhas e outras pessoas associadas ao caso também foram detidas e supostamente submetidas a exames invasivos. Ativistas disseram que isso deu às mulheres a mensagem de que denunciar um estupro ou atuar como testemunha pode colocá-las em risco de prisão.

O incidente envolvendo o médico brasileiro aconteceu poucos dias depois de um anúncio que gerou revolta entre diversos grupos que lutam pelos direitos das mulheres. No dia 12 de maio, promotores no Egito arquivaram o caso do Fairmont Nile City, dizendo que não há “provas suficientes”. Os quatro suspeitos do caso foram libertados, disseram os promotores.

Apesar desta decisão, alguns ativistas no Egito dizem que as atitudes em relação aos direitos das mulheres e à agressão sexual estão começando a melhorar. No episódio relacionado a Zaki, várias celebridades e influenciadores se manifestaram em apoio às mulheres que faziam acusações contra ele.

No ano passado, a mais alta autoridade religiosa do país, a mesquita Al-Azhar, divulgou uma declaração condenando o assédio sexual, declarando que as roupas de uma mulher nunca poderiam ser uma justificativa para o assédio.

O lado do médico

Victor Sorrentino segue sem poder retornar ao Brasil, enquanto o Ministério Público do Egito apura o caso. Até o momento, ele não foi acusado formalmente de nenhum crime. O Itamaraty está acompanhando o caso.

A BBC News Brasil entrou em contato via e-mail e WhatsApp com pessoas próximas do médico Victor Sorrentino, na tentativa de conversar com ele: o advogado Paulo Uebel, amigo do médico, uma irmã de Victor e um contato do consultório do médico, em Porto Alegre.

Na segunda-feira, quando o médico foi detido no Cairo, uma advogada de Victor no Brasil havia dito que o médico estava com acesso a seu telefone celular e conversando com parentes.

Até a publicação desta reportagem, não houve resposta de nenhuma das partes.

Na quinta-feira (03/06), Uebel publicou em sua conta pessoal do Instagram uma nota em português, árabe e inglês com um pedido de desculpas assinado pelos familiares do médico, pedindo que esse conteúdo fosse divulgado por todos.

“Nosso sincero pedido de desculpas à vítima, família da vítima e a todos que possam ter se sentido ofendidos”, diz a nota assinada pela esposa do médico, Kamila Monteiro, e outros cinco familiares — mas sem a assinatura do próprio Victor Sorrentino.

Em um trecho em inglês, os familiares prometem “reparar todos os danos morais e materiais”.

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